INESQUECÍVEIS!!!
Moisés Silveira de
Menezes
Fui instado, solicitado ou estimulado - dependendo do olhar do leitor - a escrever sobre professores inesquecíveis. Existem? Existiram? Durante o processo de reflexão que antecede o ato de escrever, deparei-me com um texto de Paulo Geraldo que acabou por comprovar-me: existem os professores inesquecíveis e eles são muitos e andejam por aí no anonimato.
O fragmento textual de
Paulo Geraldo, que transcrevo a seguir, me deixa na obrigação
de retirar alguns professores do anonimato que a história
lhes
dedicou:
“No passado do poeta que escreveu versos sublimes, há quase de certeza um professor que o obrigou a exercitar-se na sintaxe, que o forçou a corrigir vezes sem conta frases mal escritas, que ralhou com ele quando se desleixava. Na juventude daquele que escreveu uma bela sinfonia houve muito possivelmente uma professora, talvez já velhota, que lhe explicou cem vezes, pacientemente, qual era a forma correta de colocar as mãos quando se sentava ao piano.O poeta e o músico tiveram o seu nome escrito na História, mas ninguém recorda quem foram os seus mestres. No entanto, há uma beleza imensa nesse passar despercebido, nesse ter rasgado as mãos ao trabalhar nos escuros alicerces de um mundo melhor. Uma beleza que só é apreciada pelas grandes sensibilidades, como são as daquelas pessoas que se dedicaram de corpo e alma à educação. Uma boa parte da humanidade prefere aquilo que dá nas vista ou produz frutos imediatos...”
Fala-se muito em método, abordagem adequada, moderna, humanista, mas vou falar de professores como mestres que me conduziram até aqui, sem me preocupar com a escola pedagógica a qual pertenciam ou se filiavam.
“No passado do poeta que escreveu versos sublimes, há quase de certeza um professor que o obrigou a exercitar-se na sintaxe, que o forçou a corrigir vezes sem conta frases mal escritas, que ralhou com ele quando se desleixava. Na juventude daquele que escreveu uma bela sinfonia houve muito possivelmente uma professora, talvez já velhota, que lhe explicou cem vezes, pacientemente, qual era a forma correta de colocar as mãos quando se sentava ao piano.O poeta e o músico tiveram o seu nome escrito na História, mas ninguém recorda quem foram os seus mestres. No entanto, há uma beleza imensa nesse passar despercebido, nesse ter rasgado as mãos ao trabalhar nos escuros alicerces de um mundo melhor. Uma beleza que só é apreciada pelas grandes sensibilidades, como são as daquelas pessoas que se dedicaram de corpo e alma à educação. Uma boa parte da humanidade prefere aquilo que dá nas vista ou produz frutos imediatos...”
Fala-se muito em método, abordagem adequada, moderna, humanista, mas vou falar de professores como mestres que me conduziram até aqui, sem me preocupar com a escola pedagógica a qual pertenciam ou se filiavam.
As
primeiras professoras foram maternais e por isso firmes, convincentes, ternas e
dedicadas, não raro delicadas e sobretudo com postura de educadoras e, por
favor, não me peçam para explicar o que é postura de professores, é inadequado
demais para o texto que apenas se propõe a viajar pelo campo das
lembranças. Acredito que hoje com a proliferação de cursos e de
pensadores em educação, todos saibam o que é, entretanto se não souberem, posso
afirmar que a Lucia Regina, a Leda, a Gilca , a Dileta, a Nevina e a Mirian, lá
no distante e sempre presente Grupo Escolar Joaquim Nabuco, na lendária
Tupanciretã, sabiam muito bem e talvez não por isso, mas também por isso se
tornaram absolutamente
inesquecíveis.
Depois da aprovação na temida Admissão ao Ginásio (o primeiro vestibular da nossa vida), adentramos a Escola Estadual Mãe de Deus e aí foi um rebuliço danado: um professor para cada matéria, entreveros de cadernos e livros. Então surge a professora Vânia, elegante, muito bonita e com sua bem apresentável sacola mágica (espécie de sala de recursos pedagógicos portátil) de onde saiam esquadros, réguas, compassos e talvez até uma varinha de condão, na tentativa de nos ensinar os caminhos da arte, do belo e o tão sonhado campo afetivo sendo estimulado e trabalhado para somar-se ao cognitivo no rumo de uma aprendizagem completa.
Inesquecível!! A habilidade do Paulo Couto enchendo o quadro negro com uma fantasmagórica equação do segundo grau, a qual ia dissecando de forma clara e concisa (matemática tem que ter claritude e concisão), dissipando os fantasmas euclidianos, pitagóricos e outros tantos que habitavam os abissais da matéria.
Que falar das provas do Nestor Mantese? Uma folha de papel almaço para quatro equações “sangiorgianas” e “quintelanas” valendo dois e meio pontos cada uma. Como aprendemos e não ficamos traumatizados com esses métodos tão arcaicos e antiquados?
Depois da aprovação na temida Admissão ao Ginásio (o primeiro vestibular da nossa vida), adentramos a Escola Estadual Mãe de Deus e aí foi um rebuliço danado: um professor para cada matéria, entreveros de cadernos e livros. Então surge a professora Vânia, elegante, muito bonita e com sua bem apresentável sacola mágica (espécie de sala de recursos pedagógicos portátil) de onde saiam esquadros, réguas, compassos e talvez até uma varinha de condão, na tentativa de nos ensinar os caminhos da arte, do belo e o tão sonhado campo afetivo sendo estimulado e trabalhado para somar-se ao cognitivo no rumo de uma aprendizagem completa.
Inesquecível!! A habilidade do Paulo Couto enchendo o quadro negro com uma fantasmagórica equação do segundo grau, a qual ia dissecando de forma clara e concisa (matemática tem que ter claritude e concisão), dissipando os fantasmas euclidianos, pitagóricos e outros tantos que habitavam os abissais da matéria.
Que falar das provas do Nestor Mantese? Uma folha de papel almaço para quatro equações “sangiorgianas” e “quintelanas” valendo dois e meio pontos cada uma. Como aprendemos e não ficamos traumatizados com esses métodos tão arcaicos e antiquados?
E o Arthur Bisso? Como os antigos gregos,
professor de matemática com jeito de poeta! Com muita facilidade, calma e bom
humor nos inseria no intricado mundo dos números.Parecia por vezes que não
estava ali, parecia por instantes que voava para outros lugares, mas quando
precisávamos, estava sempre por perto para o necessário socorro naquela babel
de números.
A Odila Teixeira foi uma abnegada orientadora pela árdua estrada dos números. Competente, dedicada e
exigente, mais tarde acabou sendo uma querida e fraterna amiga, mercê dos
Encontros Literários da Aldeia.
“Alons
enfants de la Patrie,/le jour de gloire est arrivé !/contre nous de la
tyrannie !/L’étendard sanglant est levé.....”. E lá vem a professora Gládis
Veríssimo, elegante como Josephine, imponente como Dumouriez, mais exigente e
disciplinadora que Bonaparte e, por mais incrível que possa parecer,muito
moderna,muito avançada para sua época.Suas aulas eram participativas,muito
musicais e como nada fixa mais que uma imagem, uma canção ou um poema, ainda
hoje guardo alguns versos de uma velha canção romântica que costumava cantar
conosco: “Fenetre ouverte/On écoutait le bruit des vagues/Des vagues
vertes qui se brisaient sur le rivage/On restait là les yeux fermés sans se
parler/Comme ayant peur que ce bonheur ne soit pas vrai/On aurait dit une
chanson, le bruit des vagues...”
O
Diniz e o seu radiante “Good Morning Class!” na entrada da aula. Irrequieto,
abnegadamente até os limites dos costumeiros estresses insistindo para que
adquiríssemos uma segunda língua o que se faria quase indispensável pouco tempo
depois.
A professora
Sônia, uma vez por semana, aparecia do alto da sua beleza e elegância com
sua geografia. Quase hermética, encantou-nos com seus relevos, curvas e
meandros.
Outros
professores conviveram conosco por espaço de tempo menor : o Carbone, o Ataíde,
o Carlos Bento, o Dario, o tio Dega,a Vanir a Mariângela;
todos fundamentais na composição e formatação do carácter e da consciência dos
homens e mulheres que nos tornamos. A escola foi e sempre será a sementeira dos
cidadãos de bem, dos construtores de um tempo novo, mais justo e melhor para se
viver.
Muitos foram
fundamentais nas turmas ao lado, mas foram marcantes e inesquecíveis também para
nós. A escola é uma grande família que converge para o maior bem que
conhecemos:formar cidadãos para transformarem a sociedade visando o bem
coletivo,a felicidade comum.
Nesse capítulo
contamos com a alegria, o bom humor e a irrequietude do Tamoio, a
bondade e a ternura das professoras:Iolanda,Nara Pagel, Eunice
Bañolas,Gisela Irion,Therezinha,Maria Eulália e Nilva.Contamos também com o civismo vibrante da professora Ulânia e as surpresas do Professor Antônio.
A professora Iolanda trazia a história via Borges Hermida e outros ,bem explicada e bem cobrada, com provas de poucas questões e longas respostas, sendo que algumas até hoje ainda são lembradas .
A professora Iolanda trazia a história via Borges Hermida e outros ,bem explicada e bem cobrada, com provas de poucas questões e longas respostas, sendo que algumas até hoje ainda são lembradas .
Uma ficou
poucos dias, tempo suficiente para nos dar como tarefa de aula uma
redação com o criativo e profundo título:-Se Eu Pudesse...Reza a lenda que ao
final da aula saiu com umas dez redações que
começavam invariavelmente assim;-Se eu pudesse contigo casar....Não a
vimos mais depois disso.
Quem não lembra do Barraquine?
Que a mim parecia habitar o Ginásio de Esportes, sempre fardado a rigor, na
espera dos alunos para as animadas sessões de Educação Física que sempre
estavam planejadas, mas sempre poderiam mudar dependendo de uma boa conversa.
O professor Agostinho, a fleuma e a elegância para nos conduzir pelo
mundo encantado das ciências,nos apresentando a Esquálida Catarina que ficou
tão famosa e querida e ainda hoje auxilia os Alunos da Mãe de Deus a
conhecerem seu próprios corpos. Foi também vice -diretor da Escola e
excelente parceiro para uma partida de voleibol ,esporte em que era um atleta
diferenciado.
A Física era o
campo do professor Abigail. Nos falava de Newton, dos corpos e seus lugares
no espaço e recheava tudo isso com notícias da Europa, notadamente do
automobilismo com destaque para as famosas 24 horas de Le Mans.
Para os que, como
eu, eram artistas da Banda Bridi, a professora Vera Mardini foi um exemplo de
amor à arte, à escola e aos alunos. Exigente, carinhosa, incansável, tudo a seu
tempo, no mister de representarmos nossa escola, orgulhosos em nossos
uniformes e do nosso mundo particular, a música! Claro que havia o ônus
de enfrentarmos o mau humor constante do seu monitor Jurandir, o Chumbo,
mas até esse decantado mau humor serviu muito para a construção dos seres
humanos que hoje somos.
Skinner seria chamado e
decomposto em ideias para classificar alguns de meus professores inesquecíveis,
como a professora Iolanda que verbalizava as causas, porquês e consequências
dos fatos históricos, com tal propriedade que parecia ter estado presente aos
acontecimentos.Fiel ao modelo da época, nada de marcar com cruzinha (sim, a
famigerada já estava chegando para assinalar a sepultura do raciocínio
escrito), eram poucas e exaustivas questões de argumentação ou de responder por
escrito. Pode parecer inapropriado, cansativo e antipedagógico aos pensadores
de hoje, mas que nós aprendemos é um fato e fatos são fatos, falam por
si.
Uma
imensa lista de sufixos, prefixos e radicais greco-latinos me lembra a
professora Isolda, formação das palavras, produção de textos, à época, a temida
e lendária composição.
Estilo tradicional,
participação estimulada e controlada, respostas curtas e secas para as
impertinências da idade e a matéria, num crescendo quase assustador, sendo
cobrada e bem cobrada, sabia tudo e transmitia melhor
ainda.
Português lembro ainda era cátedra do professor Orlando com seus livros de linha Marista e sua tranquilidade franciscana. Esse me iniciou literariamente ao incentivar-me a escrever cem vezes “Não devo comer bergamotas na sala de aula”, texto que foi modificado logo após meu habeas corpus civilizado (acolhido em parte) afirmando ser limão a fruta que eu estava comendo.
Que dizer do austero, diligente e competente professor Balbinot? Quase pré-Skinner, quem sabe até pavloviano, diriam, fosse analisado aos olhos de hoje, mas que nos ensinou a navegar pelos meandros e labirintos da tão querida Língua Pátria.
Português lembro ainda era cátedra do professor Orlando com seus livros de linha Marista e sua tranquilidade franciscana. Esse me iniciou literariamente ao incentivar-me a escrever cem vezes “Não devo comer bergamotas na sala de aula”, texto que foi modificado logo após meu habeas corpus civilizado (acolhido em parte) afirmando ser limão a fruta que eu estava comendo.
Que dizer do austero, diligente e competente professor Balbinot? Quase pré-Skinner, quem sabe até pavloviano, diriam, fosse analisado aos olhos de hoje, mas que nos ensinou a navegar pelos meandros e labirintos da tão querida Língua Pátria.
Esse
era o mundo da sala de aula, mas existia o pátio, os corredores, os cantos, as
escadarias e aí reinava a nossa bedel Elenita, que vigilava esses espaços
com muita propriedade a fim de trazer para a linha os pequenos deslizes e
encaminhar à direção os mais complexos.
Por falar em direção, a
Dona Noeli Mardini exercia a função com seu estilo de conciliadora nata, com um
seu jeito de avó com idade de mãe. Nunca a vi penalizar um aluno sem tentar os
meios do convencimento, da conversação. Por alguns momentos, foi mais próxima
de nossa turma que alguns professores, daí a explicação, talvez, para o imenso
carinho que sempre tivemos por ela.
E foi por aí, na fantástica Terra da Mãe de Deus, entre esses inesquecíveis mestres, que aprendi uma lição para toda a vida: Escrever exige introdução, desenvolvimento e conclusão. E no meio? Recheia-se com aquilo que a vida ensinar e, como bem aprendi e disso faço uso quase diário. Creio deva ficar por aqui, embora muito ainda possa ser dito sobre e para Professores Inesquecíveis!
Moisés Silveira de Menezes
Que bela escrita Moisés. Enquanto lia também lembrei dos mestres que participaram da minha caminhada, iniciada em Tupã, no Joaquim Nabuco e depois no Mãe de Deus. Contamos com tua saudação aos nossos mestres no encontro dos Quartanistas, a inspiração já chegou!! Um abraço. Carmen
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