domingo, 29 de março de 2015

PAISAGEM QUE EXCEDE EM SIGNIFICAÇÕES

PAISAGEM QUE EXCEDE EM SIGNIFICAÇÕES
Moisés Silveira de Menezes
Poeta,compositor,pesquisador da história do RS
Licenciado em Letras Português-Espanhol.Cel RR da Brigada Militar do RS.


            A Carta de Budapeste da UNESCO (2002) ratificando a Convenção do Patrimônio Mundial de 1972define as paisagens culturais como bens culturais que representam as obras conjugadas do homem e da natureza,e ilustram a evolução da sociedade humana e a sua consolidação ao longo do tempo, sob a influência das condicionantes físicas e/ou das possibilidades apresentadas pelo seu ambiente natural e das sucessivas forças sociais, econômicas e culturais, externas e internas.Também classifica as paisagens culturais em três categorias principais:
- A paisagem intencionalmente concebida e criada pelo homem por razões estéticas ( jardins, parques).
-A paisagem essencialmente evolutiva. Resulta de uma exigência de origem social, econômica, administrativa e/ou religiosa. Subdivide-se em duas categorias:
- uma paisagem relíquia (ou fóssil) é aquela que sofreu um processo evolutivo, mas que foi interrompido num dado momento do passado. Porém, as suas características essenciais mantêm-se materialmente visíveis;
- uma paisagem viva conserva um papel social ativo na sociedade contemporânea, e está intimamente associada ao modo de vida tradicional e na qual o processo evolutivo continua.
- A última categoria compreende a paisagem cultural associativa.
Portanto, vê-se sob esse ponto de vista que a obra Significados da Paisagem, de Victor Aquino, se apresenta para o leitor, pois é no contexto da paisagem cultural associativa que a vida caminha que a vida acontece e assim produz história, produz cultura,sempre a partir de um processo vivo de permanente diálogo entre a paisagem natural e a paisagem cultural visando o progresso,o bem comum e o bem estar da humanidade.
É preciso destacar que em Significados da Paisagem, o autor utiliza uma frase de seu pai Francisco de Sales Marques Corrêa para situar a obra e para definir a paisagem adiantando ao leitor o significado, o conteúdo e a abrangência da obra: “A primeira coisa que alguém vê em uma paisagem é aquilo que mais importa ou, por alguma razão, é aquilo que mais interessa a quem está vendo.”
Ainda no mesmo sentido de antecipar a ideia e também a dimensão do seu trabalho que se apresenta a partir do que viu,ouviu, viveu e pesquisou com profundidade, pois as raízes de uma família sempre envolve uma busca árdua e complexa ,prossegue o autor afirmando:
Pois certamente. Nessa imensa paisagem que é a minha vida, tudo que sobressai dela é aquilo que me interessa mais, ou o que mais se refere a mim. Nessa paisagem de vida, o que mais me prende o olhar (ou a lembrança) é tudo isso que aparece em primeiro plano. E nesse primeiro plano está sempre a imagem de meu pai. Uma imagem ainda muito nítida. A imagem que confere significado a tudo o mais que vem depois.
No primeiro momento em uma leitura plana,superficial, pode-se depreender que adentrará pelos estreitos caminhos de uma obra de cunho e conteúdo eminentemente pessoal,de significado e alcance reduzidos ao liame familiar,refletindo apenas o que interessa,o que viu e o que transmitiu seu autor sem preocupação maior com o processo histórico.
Significados da Paisagem pretendia ser apenas uma homenagem ao pai do autor-narrador por ocasião e para assinalar o centenário do nascimento daquele. No entanto, já nas primeiras páginas, o leitor de olhar mais acurado e ouvido bem atento, por certo vai captar que a obra caminha com naturalidade pela senda bem delineada da ficção histórica para situar-se  naquela faixa que permeia com nitidez o diálogo entre história e literatura,pois segundo Weinhardt:
O passado é uma empresa do imaginário, seja no plano da história, seja no da criação literária. Mas cada discurso preserva sua identidade. Para reconhecê-la, é indispensável refletir sobre as similitudes da narrativa histórica e da narrativa ficcional, bem como sobre as suas singularidades.
O autor utiliza um rigor investigativo nas pesquisas que antecederam a edição:metódico, cuidadoso, esmerado e isso, além do conhecimento e da prática acadêmica que assim se apresenta,observa-se também que herdou do pai - a grande figura, a personagem que transita com autoridade por toda a obra. Essa conduta na busca da verdade,do dado concreto,exato,fica bem clara quando a prefacista Taís Gomes Correa relata uma troca de cartas,no ano 1960,entre seu avô Francisco de Sales Correa Leite e um presbítero,responsável pela guarda e manuseio do arquivo da arquidiocese de Uruguaiana.Esse fato ilustra a preocupação em descobrir com exatidão a data de nascimento de uma criança da família, cujo batismo se dera em uma igreja na região de São Borja, por volta de 1860.A certa altura,afirma Taís, que em uma das cartas, o religioso aparentemente já enfadado com a insistência de seu avô, escreve:“...por que o senhor tem tanta necessidade desses dados?”Ao que seu avô, em resposta à missiva, responde incisivo:“tranquiliza-me saber com exatidão esses dados para que o tempo não deixe ninguém da família esquecer de onde veio.”
Alguns personagens, membros da família, participaram de grandes acontecimentos da história do sul do país como a colonização açoriana, que é primordial para se entender a formação do homem sulino, pois essa foi estimulada pelo interesse de Portugal em povoar o território do Brasil colônia, alternativa empregada para impedir a exploração das novas terras portuguesas por outras nacionalidades.Em determinado momento, o avô de Victor migra do Rio Pardo para o Boqueirão,dentro do processo de ocupação da região missioneira conquistada, em 1802, para o reino de Portugal que a história registra como “incorporação tardia” ao território brasileiro, outro episódio de significado para a formação da população sulina.
                       Ainda temos a Retirada de Laguna, que, embora configure uma espécie de épico ao contrário, se constituiu como um grande feito das tropas brasileiras comandadas pelo Coronel Carlos de Morais Camisão.O singular episódio foi eternizado pela pena de Alfredo Maria Adriano d'Escragnolle Taunay, o Visconde de Taunay, que no final da Guerra do Paraguai ocupava o posto de secretário do estado-maior do conde d’Eu, comandante geral das forças brasileiras.Nesse episódio, a família do autor vem a perder três integrantes,quais sejam seu bisavô e dois filhos.Todo esse emaranhado de acontecimentos importantes, embora sejam pouco aprofundados na narrativa,confirmam a rigorosa investigação,a cuidadosa certificação dos dados colhidos mediante cruzamentos e cotejamentos porque o autor tem a mesma persistência e o mesmo rigor de seu pai que houvera iniciado a busca dos inúmeros ramos da árvore genealógica da família.
Segundo ainda a autora do prefácio, Taís Gomes Correa, ao pesquisar uma listagem dos mortos na Retirada da Laguna, Victor Aquino depara-se com oito versões diferentes, mas com muitas semelhanças, alguns nomes repetidos e uma série de situações envolvendo grafias incorretas, tudo dentro de um contexto bem familiar par quem pesquisa documentos antigos,por vezes mal preservados e por isso bem trabalhoso na apuração e purificação dos dados colhidos.Mas o autor, a exemplo se seu pai,foi persistente e criterioso na medida necessária para lograr êxito e colher o material que faltava a fim de completar com absoluta correção e esmero a narrativa.Vejamos isso nas palavras textuais de Taís:
No contexto do livro, embora sejam poucas as páginas que remetem à guerra dos Farrapos, ou à guerra do Paraguai, esses dados foram consolidados com exatidão porque, segundo o próprio autor, “envolvem a participação de nossos ancestrais”. Como descendemos deles, é confortável saber de onde vieram, o que fizeram e o que representaram, pelo menos para a família. A certa altura o autor escreve que se trata“ de um tempo distante e já pouco lembrado, sem grande importância histórica para quem vive a superficialidade dos dias atuais”.”
Emerge da obra um conjunto de personagens muito vigorosos, marcantes e que inegavelmente nos passam a ideia do contexto histórico de sua época. Em síntese,apresenta-se a ideia do viver com o que lhe cerca:trabalho, costumes, expressões,comportamentos sociais, como seu Avelino que remete para a saga dos pioneiros na povoação do Rio Grande do Sul,vida dura,trabalho árduo e homens de fibra como se pode observar nos recortes muito bem descritos e que ilustram o modo de vida naquele momento.
O pequeno Francisco encontra-o na cozinha a procura de milho para o cavalo. O menino o auxilia na busca. Ao encontrar o que procuram, o velho enche uma lata com o cereal e diz: “leva e põe no cocho para o Bromado”. [...]
 Alguém fez café. O homem engole o líquido quente de uma caneca de lata. Tem pressa. Necessita cavalgar cerca de vinte léguas em outra direção. Vai buscar umas novilhas já negociadas para abate [...] Continuava frio, mas a garoa tinha parado. Partiu a galope contra o sol que vinha nascendo. [...]
Contava-se na família que após muitas horas sobre o cavalo, com o sol a pino e o vento gelado, chega ao fundo da invernada onde há algumas reses. Está muito cansado e com febre. Desmonta e escolhe um canto de grama alta para deixar o cavalo. Retira os arreios e o prende a uma guia longa para pastar.
Entra no único aposento de um casebre existente na tapera e deita sobre uma enxerga forrada de pelegos[...] Deixa-se prostrar sobre a enxerga e cobre-se com o cobertor, o poncho e mais umas cobertas velhas que há no lugar. Começa a suar.
            Em seguida, temos o relato que recompõe os últimos momentos de Avelino.Fantástico gesto que demonstra o amor e o respeito do gaúcho por seu cavalo, sem o qual não sobrevive, não existe. Texto rico na descrição e na reconstituição embasada na oralidade da família,sem prejuízo da verdade dos fatos acontecidos.
Debilitado pelas extensas jornadas a cavalo, adormece profundamente. É já noite quando acorda com barulho de chuva, que cai torrencialmente sobre o teto de zinco do casebre. Está ensopado de suor. Alguns instantes transcorrem até lembrar-se do cavalo que deixara preso em uma guia para pastar na grama alta ao fundo da tapera. Persegue-o, então, o medo de o animal constipar-se também.
Ergue-se num sobressalto. Veste as bombachas ainda úmidas. Calça as botas e sai, direto do suadouro, para a chuva fria. Tossindo e espirrando muito, resguarda o animal em abrigo seguro contíguo ao casebre e volta a dormir. Quando acorda na manhã do dia seguinte está com febre alta, acometido de forte e incurável pneumonia. Longe de qualquer recurso, da família ou mínima assistência possível, morre sozinho à notinha. É encontrado dois dias depois.
Por igual sobressai Vargas Gomes Vieira Corrêa Leite tratado no contexto por Vargas, irmão mais velho de Francisco.É um exemplo do gaúcho ancestral, mais primitivo, com ideia de liberdade, de estância em estância, lidador, atirador exímio, alto senso de justiça e responsabilidade, homem de bem, mas desassombrado, desta forma, se encaixando perfeitamente nos tipos sociais que foram muito bem descritos e salvos do anonimato por Sejanes Dorneles como:Talco Cardoso,Martin Aquino,Iles Querubin e tantos outros que não raro ultrapassavam a linha imaginária entre o bem e o mal principalmente por não aceitarem injustiças e tolhimento da liberdade.
Certa feita o filho de Talco adoeceu, o que motivou um pedido de folga por parte do matrero, para que pudesse ajudar a esposa a cuidar da criança. Nesta época Talco buscava recompor sua imagem de cidadão de bem perante a sociedade, e pretendia passar o resto da vida na tranqüilidade. Porém tal meta foi interrompida. Sucedeu que o seu patrão no frigorífico, um estrangeiro que viera com a Swift para o Brasil e tinha o costume de tratar a peonada daqui com um ar de arrogância e superioridade, não permitiu a folga solicitada. Talco, vendo o filho mal, ignorou o fato e não compareceu ao serviço durante três dias. Ao retornar, o patrão lhe quis aplicar uma suspensão, motivando com isso uma discussão. Talco não achava justo, faltara por motivos de saúde de seu filho. A discussão logo se transformou em briga, com o gringo levando uma baita surra de relho. No outro dia a polícia bateu na casa de Talco, levando-o preso.
No seguinte trecho de Significados da Paisagem se pode perceber a semelhança no agir,quando Vargas,na atitude, na conduta, se aproxima do célebre Talco com o mesmo sentimento de promover a justiça ao saber de uma surra injusta e desmedida que o cunhado havia aplicado em seu irmão menor Francisco:
Meu pai nunca entendeu como, mas sabia que o Vargas, poucos dias depois, encontrou o árabe em um armazém para o qual fornecia mantimentos e, enfrentando-o, meteu-lhe uma faca no pescoço dizendo: “só não te mato agora porque tu és genro da minha mãe”. E, enquanto o soltava, continuou: “se fizeres de novo, volto pra te picotar na faca e te despachar ao inferno”.
A figura mais marcante, o grande personagem da narrativa é sem dúvida Francisco de Sales Marques Corrêa. Sai de casa ainda menino para viver sob a guarda da irmã casada com um negociante árabe o qual maltrata e escraviza a criança. Em dado momento, dando provas de tenacidade e coragem vinga-se do cunhado de forma impressionante, uma ação que o aproxima de Vargas, o irmão que o protegera enquanto vivo, mas que falecera bem jovem. Volta para casa da mãe, da qual só sabia a direção, onde obtém proteção e onde faz sua base para logo seguir um caminho traçado por ele mesmo com muita persistência:
Foi um tempo de descobertas. Gente que não imaginava existir começa a surgir em sua vida. Como o padrinho de batismo, Servírio Jornada, que vivia em uma propriedade nas cercanias da velha Santiago do Boqueirão. Na nova fase da vida, começa uma série de outros convívios. O padrinho, como o primo Pedro Winkle, tornam-se personagens centrais desse novo momento. Acompanha o padrinho em carreteadas, nas quais leva charque e traz sal do Rio Pardo. Com o primo irá tropear estrada afora, entre as fronteiras com a Argentina e o Uruguai. Era ainda o tempo dos abates de curral, das carneadas com muito sangue jorrado no pasto, das salmouras, das mantas de charque e, claro, das varejeiras que revoam sobre carne nova. Será nesse contexto, entre tropeadas e carreteadas, que acabará de crescer e se tornará adulto.
Na passagem pelo serviço militar em Santo Ângelo,faz contato com a Missão Francesa e aprende noções de conversação, arte, história, muito do que será utilizado na fotografia, arte na qual se aperfeiçoa, em Porto Alegre, com um dos melhores fotógrafos do estado, Álvaro Barbeiros, ao qual impressiona pela qualidade do trabalho e pela técnica de aprimoramento da foto.
 A bordo de um carroção tracionado por uma parelha de mulas vai viajar pelo interior do estado,fotografando, mas também conhecendo e ensinando. É observador nato e um empreendedor persistente. Nesse viajar de um lado para outro,conhece Tupanciretã,cidade que não tem um profissional em fotografia,lá se estabelece.Casa-se com sua prima em Santiago e, vindo morar em Tupanciretã,faz história como profissional sério e capacitado.Fotografou,com seu olhar aguçado, inquieto e profundamente revelador,a cidade, seus habitantes, dando para eles “significado”, e aprisionou, assim, um pouco do tempo em uma câmera de qualidade singular, pois segundo ele mesmo:
a fotografia é muito mais que o registro de um momento, ela é também um estimulador da imaginação, que aguça a fantasia de quem se vê no retrato, assim como de quem olha a fotografia de qualquer cena, de qualquer objeto, de qualquer pessoa.
                            Depois de alguns anos bem sucedidos em Tupanciretã,em razão de fortes dissabores ante algumas paredes de incompreensão e obscuridade,resolve mudar-se para São Paulo onde se estabelece com sucesso e forma os filhos coroando dessa maneira sua melhor obra, visto que sempre acreditou e trabalhou na crença de que a educação de um filho é de fundamental importância, pois entendia que “a educação de um filho começa muito antes do avô dele nascer”.  Ainda sobre essa temática, Victor Aquino refere:
Durante toda a vida esteve sempre preocupado com o conhecimento. Ele dizia: “aprender é conhecer, conhecer é saber mais, saber mais é melhorar”. Melhorar, segundo ele, também era o modo que o ser humano tem para se reinventar. A reinvenção da pessoa passa também pelos outros, com os quais vive e convive. Toda a vez que tinha a oportunidade falava: “o aprimoramento de qualquer pessoa é um ato de respeito aos outros.”
                       Segundo Diderot o pintor só tem um momento. Ele não pode registrar dois momentos diferentes,assim como não pode registrar dois movimentos diferentes.Lendo essa afirmação em O Amante do Vulcão, de Susan Sontag, faço uma ponte para a fotografia,pois entendo que haja um permanente dialogo e similitude essa e a pintura.O fotógrafo também não pode captar dois momentos diferentes ou iguais.Uma fração de segundo de tempo passado, e o momento que pode parecer o mesmo já não é, e nada irá recuperá-lo, assim,a frase de Francisco de Sales: “que o mais importante que a câmera são os olhos do fotógrafo também faz sentido em relação a pintura.”
Por outro lado, Roland Barthes faz uma distinção entre o facultativamente real que remete a uma imagem ou um signo,no caso da pintura, e o necessariamente real que é colocado diante da objetiva,pois a pintura pode simular a realidade sem tê-la visto,porém na fotografia o real deve estar lá,em frente à objetiva.
                                       Por muito tempo em alguns povos perdurou a crença de que uma fotografia pode roubar a alma, capturá-la,aprisioná-la. Essa crença existiu e existe de formas diferentes em muitas culturas, mas acredita-se que a origem reside na crença no poder dos espelhos. No folclore, os espelhos têm poder de roubar almas. A superstição de quebrar um espelho e por isso atrair a má sorte deve-se ao fato de crer-se que um espelho partido prejudica a alma.
                     Na antiguidade, gregos, romanos, egípcios e muitos outros povos utilizavam superfícies reflexivas, como espelhos, para a prática de adivinhação, premonição para prever o futuro. Acreditava-se que os espelhos abrem portais dimensionais, permitindo que outros seres ancestrais tenham acesso a vários planos inclusive ao nosso.
             No texto “Almas roubadas através de fotografias?”, disponível no blog Portugal Misterioso, encontrei essa afirmação:
A fotografia, mais do que qualquer outra forma de arte, tem a capacidade de capturar um elemento vivo, um ponto da alma. A maioria das pessoas acha que o fato de fotografar um momento no tempo capta uma essência que é normalmente perdida na história. Mas as fotografias capturar mais de um aspecto do que o tempo vivido, a fotografia capta literalmente um elemento da força da vital, que foi apresentado no momento em que foi feita a fotografia.
Em Significados da Paisagem, todo um contexto sociocultural foi e ainda segue sendo retratado pela câmera de Francisco de Sales Marques Corrêa. Os negativos guardados com carinho continuam a falar, a mostrar, a desnudaras pessoas, os fatos e a vida em uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul,como se a velha máquina, liberta das amarras do tempo, continuasse a fotografar. Por outro lado, percebe-se que agora temos a nos falar do “Significado da Paisagem” não só a velha câmera eo olhar do fotógrafo, mas também o olhar arguto e consciente de seu biógrafo que tem a autoridade de quem guardou além dos negativos,as falas e a paisagem vista por quem sabia que o olhos eram mais importantes que a máquina.
O imaginário do narrador conduz para um despertar do passado cujo propósito era de contar a saga de uma família. Assim, o personagem principal, Francisco de Sales Marques Corrêa,sob o ponto de vista de uma antiga câmera fotográfica e de suas impressões como fotógrafo, mesmo querendo apenas viver honradamente do exercício competente de uma profissão, o fez com tamanho profissionalismo, dedicação e esmero,fazendo assim história e arte e, depreende-se das falas,das imagens,do relato pessoal, que o fez de forma consciente.Tinha convicção de que sua câmera, assentada no presente, apontava para o futuro e, algum dia, iria desnudar o passado libertando as velhas almas aprisionadas para que nos encantem com suas histórias e, sobretudo nos falem:de um tempo distante e já pouco lembrado, sem grande importância histórica para quem vive a superficialidade dos dias atuais.”



BIBLIOGRAFIA
AQUINO,Victor.Significados da paisagem.São Paulo.Instituto da Moda,2012
BARTHES,Roland.A câmara clara. Rio de Janeiro. Nova Fronteira,1984
DORNELES, Sejanes. Os Últimos Bandoleiros a Cavalo.Caxias do Sul. Editora da UCS. 2001
PORTUGAL MISTERIOSO.Blog, Almas roubadas através de fotografias
SONTAG,Susan.O amante do vulcão.São Paulo.Cia das Letras,2001.
WEINHARDT, Marilene. Ficção e história: retomada de antigo diálogo. Revista Letras, Curitiba, n. 58, p. 105-120. jul./dez. 2002. Editora UFPR









            




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

CASA TOMADA--JULIO CORTÁZAR



Gostávamos da casa porque, além de ser espaçosa e antiga (as casas antigas de hoje sucumbem às mais vantajosas liquidações dos seus materiais), guardava as lembranças de nossos bisavós, do avô paterno, de nossos pais e de toda a nossa infância.

Acostumamo-nos Irene e eu a persistir sozinhos nela, o que era uma loucura, pois nessa casa poderiam viver oito pessoas sem se estorvarem. Fazíamos a limpeza pela manhã, levantando-nos às sete horas, e, por volta das onze horas, eu deixava para Irene os últimos quartos para repassar e ia para a cozinha. O almoço era ao meio-dia, sempre pontualmente; já que nada ficava por fazer, a não ser alguns pratos sujos. Gostávamos de almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como conseguíamos mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a pensar que fora ela a que não nos deixou casar. Irene dispensou dois pretendentes sem motivos maiores, eu perdi Maria Esther pouco antes do nosso noivado. Entramos na casa dos quarenta anos com a inexpressada idéia de que o nosso simples e silencioso casamento de irmãos era uma necessária clausura da genealogia assentada por nossos bisavós na nossa casa. Ali morreríamos algum dia, preguiçosos e toscos primos ficariam com a casa e a mandariam derrubar para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos com toda justiça, antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não incomodar ninguém. Fora sua atividade matinal, ela passava o resto do dia tricotando no sofá do seu quarto. Não sei por que tricotava tanto, eu penso que as mulheres tricotam quando consideram que essa tarefa é um pretexto para não fazerem nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, casacos para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e depois o desfazia num instante porque alguma coisa lhe desagradava; era engraçado ver na cestinha aquele monte de lã encrespada resistindo a perder sua forma anterior. Aos sábados eu ia ao centro para comprar lã; Irene confiava no meu bom gosto, sentia prazer com as cores e jamais tive que devolver as madeixas. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar em vão se havia novidades de literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso na Argentina. Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho nenhuma importância. Pergunto-me o que teria feito Irene sem o tricô. A gente pode reler um livro, mas quando um casaco está terminado não se pode repetir sem escândalo. Certo dia encontrei numa gaveta da cômoda xales brancos, verdes, lilases, cobertos de naftalina, empilhados como num armarinho; não tive coragem de lhe perguntar o que pensava fazer com eles. Não precisávamos ganhar a vida, todos os meses chegava dinheiro dos campos que ia sempre aumentando. Mas era só o tricô que distraía Irene, ela mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas olhando suas mãos como puas prateadas, agulhas indo e vindo, e uma ou duas cestinhas no chão onde se agitavam constantemente os novelos. Era muito bonito.

Como não me lembrar da distribuição da casa! A sala de jantar, lima sala com gobelins, a biblioteca e três quartos grandes ficavam na parte mais afastada, a que dá para a rua Rodríguez Pena. Somente um corredor com sua maciça porta de mogno isolava essa parte da ala dianteira onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o salão central, com o qual se comunicavam os quartos e o corredor. Entrava-se na casa por um corredor de azulejos de Maiorca, e a porta cancela ficava na entrada do salão. De forma que as pessoas entravam pelo corredor, abriam a cancela e passavam para o salão; havia aos lados as portas dos nossos quartos, e na frente o corredor que levava para a parte mais afastada; avançando pelo corredor atravessava-se a porta de mogno e um pouco mais além começava o outro lado da casa, também se podia girar à esquerda justamente antes da porta e seguir pelo corredor mais estreito que levava para a cozinha e para o banheiro. Quando a porta estava aberta, as pessoas percebiam que a casa era muito grande; porque, do contrário, dava a impressão de ser um apartamento dos que agora estão construindo, mal dá para mexer-se; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca chegávamos além da porta de mogno, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta pó nos móveis. Buenos Aires pode ser uma cidade limpa; mas isso é graças aos seus habitantes e não a outra coisa. Há poeira demais no ar, mal sopra uma brisa e já se apalpa o pó nos mármores dos consoles e entre os losangos das toalhas de macramê; dá trabalho tirá-lo bem com o espanador, ele voa e fica suspenso no ar um momento e depois se deposita novamente nos móveis e nos pianos.

Lembrarei sempre com toda a clareza porque foi muito simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando no seu quarto, por volta das oito da noite, e de repente tive a idéia de colocar no fogo a chaleira para o chimarrão. Andei pelo corredor até ficar de frente à porta de mogno entreaberta, e fazia a curva que levava para a cozinha quando ouvi alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som chegava impreciso e surdo, como uma cadeira caindo no tapete ou um abafado sussurro de conversa. Também o ouvi, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que levava daqueles quartos até a porta. Joguei-me contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei-a de um golpe, apoiando meu corpo; felizmente a chave estava colocada do nosso lado e também passei o grande fecho para mais segurança.

Entrei na cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja do chimarrão, falei para Irene:

— Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram a parte dos fundos.

Ela deixou cair o tricô e olhou para mim com seus graves e cansados olhos.

— Tem certeza?

Assenti.

— Então — falou pegando as agulhas — teremos que viver deste lado. 

Eu preparava o chimarrão com muito cuidado, mas ela demorou um instante para retornar à sua tarefa. Lembro-me de que ela estava tricotando um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias pareceram-nos penosos, porque ambos havíamos deixado na parte tomada muitas coisas de que gostávamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene pensou numa garrafa de Hesperidina de muitos anos. Freqüentemente (mas isso aconteceu somente nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza. 

— Não está aqui.

E era mais uma coisa que tínhamos perdido do outro lado da casa. 

Porém também tivemos algumas vantagens. A limpeza simplificou-se tanto que, embora levantássemos bem mais tarde, às nove e meia por exemplo, antes das onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene foi se acostumando a ir junto comigo à cozinha para me ajudar a preparar o almoço. Depois de pensar muito, decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia os pratos para comermos frios à noite. Ficamos felizes, pois era sempre incômodo ter que abandonar os quartos à tardinha para cozinhar. Agora bastava pôr a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria.

Irene estava contente porque sobrava mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, resolvi rever a coleção de selos do papai, e isso me serviu para matar o tempo. Divertia-nos muito, cada um com suas coisas, quase sempre juntos no quarto de Irene que era o mais confortável. Às vezes Irene falava: 

— Olha esse ponto que acabei de inventar. Parece um desenho de um trevo?

Um instante depois era eu que colocava na frente dos seus olhos um quadradinho de papel para que olhasse o mérito de algum selo de Eupen e Malmédy. Estávamos muito bem, e pouco a pouco começamos a não pensar. Pode-se viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu perdia o sono. Nunca pude me acostumar a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene falava que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor ao chão. Nossos quartos tinham o salão no meio, mas à noite ouvia-se qualquer coisa na casa. Ouvíamos nossa respiração, a tosse, pressentíamos os gestos que aproximavam a mão do interruptor da lâmpada, as mútuas e freqüentes insônias.

Fora isso tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os rumores domésticos, o roçar metálico das agulhas de tricô, um rangido ao passar as folhas do álbum filatélico. A porta de mogno, creio já tê-lo dito, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam encostados na parte tomada, falávamos em voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Numa cozinha há bastante barulho da louça e vidros para que outros sons irrompam nela. Muito poucas vezes permitia-se o silêncio, mas, quando voltávamos para os quartos e para o salão, a casa ficava calada e com pouca luz, até pisávamos devagar para não incomodar-nos. Creio que era por isso que, à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu ficava logo sem sono.) 

É quase repetir a mesma coisa menos as conseqüências. Pela noite sinto sede, e antes de ir para a cama eu disse a Irene que ia até a cozinha pegar um copo d'água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi barulho na cozinha ou talvez no banheiro, porque a curva do corredor abafava o som. Chamou a atenção de Irene minha maneira brusca de deter-me, e veio ao meu lado sem falar nada. Ficamos ouvindo os ruídos, sentindo claramente que eram deste lado da porta de mogno, na cozinha e no banheiro, ou no corredor mesmo onde começava a curva, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr comigo até a porta cancela, sem olhar para trás. Os ruídos se ouviam cada vez mais fortes, porém surdos, nas nossas costas. Fechei de um golpe a cancela e ficamos no corredor. Agora não se ouvia nada.

— Tomaram esta parte — falou Irene. O tricô pendia das suas mãos e os fios chegavam até a cancela e se perdiam embaixo da porta. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar para ele.

— Você teve tempo para pegar alguma coisa? — perguntei-lhe inutilmente.

—Não,nada.

Estávamos com a roupa do corpo. Lembrei-me dos quinze mil pesos no armário do quarto.Agora já era tarde.

Como ainda ficara com o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Enlacei com meu braço a cintura de Irene (acho que ela estava chorando) e saímos assim à rua. Antes de partir senti pena, fechei bem a porta da entrada e joguei a chave no ralo da calçada. Não fosse algum pobre-diabo ter a idéia de roubar e entrar na casa, a essa hora e com a casa tomada.



JULIO CORTÁZAR

Julio Florencio Cortázar (Embaixada da Argentina em Ixelles, 26 de agosto de 1914  Paris, 12 de fevereiro de1984) .Filho de argentinos, nasceu na embaixada da Argentina em Ixelles, distrito de Bruxelas, na Bélgica, e voltou a sua terra natal aos quatro anos de idade. Seus pais se separaram posteriormente e passou a ser criado pela mãe, uma tia e uma avó. Passou a maior parte de sua infância em Banfield, na Argentina, e não era uma criança totalmente feliz, apresentando uma tristeza frequente. Declararia: "Pasé mi infancia en una bruma de duendes, de elfos, con un sentido del espacio y del tiempo diferente al de los demás".1 Cortázar era uma criança bastante doente e passava muito tempo na cama, lendo livros que sua mãe selecionava. Muitos de seus contos são autobiográficos, como Bestiario, Final del juego, Los venenos e La Señorita Cora, entre outros.
Formou-se Professor em Letras em 1935, na "Escuela Normal de Profesores Mariano Acosta", e naquela época começou a frequentar lutas de boxe. Em 1938, com uma tiragem de 250 exemplares, editou Presencia, livro de poemas, sob o pseudônimo "Julio Denis". Lecionou em algumas cidades do interior do país, foi professor de literatura na "Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional de Cuyo", mas renunciou ao cargo quando Perónassumiu a presidência da Argentina. Empregou-se na Câmara do Livro em Buenos Aires e realizou alguns trabalhos de tradução.
Em 1951, aos 37 anos, Cortázar, por não concordar com a ditadura na Argentina, partiu para Paris (França), pois havia recebido uma bolsa do governo francês para ali estudar por dez meses, e acabou se instalando definitivamente. Trabalhou durante muitos anos como tradutor da Unesco e viveria em Paris até a sua morte. Teve uma relação de amizade com os artistas argentinos Julio Silva eLuis Tomasello, com os quais realizaria vários projetos conjuntos. Politicamente, o autor também foi um mistério, devido à fragilidade dos rótulos da época, pois, para a CIA, tratava-se de um perigoso esquerdista a soldo da KGB, enquanto esta considerava-o um notório agente do imperialismo a soldo da CIA e perigoso agitador anti-soviético, já que denunciava as prisões em Moscou dos chamados dissidentes.
Cortázar casou com Aurora Bernárdez en 1953, uma tradutora argentina. Viviam em París, sob condições econômicas difíceis e surgiu a oportunidade de traduzir a obra completa, em prosa, de Edgar Allan Poe para a Universidad de Puerto Rico. Esse trabalho foi considerado pelos críticos como a melhor tradução da obra do escritor.
Em 1963 visitou Cuba enviado pela Casa de las Américas, para ser jurado em um concurso. Foi a época de intensificação do seu fascínio pela política. No mesmo ano teve um livro traduzido para o inglês. Em 1962, lança Historias de Cronopios y Famas, e o ano de 1963 marcou o lançamento de Rayuela, que foi seu grande sucesso e teve cinco mil cópias vendidas no mesmo ano. Em 1959 saiu o volume Final del Juego. Seu artigo Para Llegar a Lezama Lima foi publicado na revista "Union", em Havana. Depois desses anos, Cortázar se comprometeu politicamente na libertação da América Latina sob regimes ditatoriais.
Em novembro de 1970 viaja ao Chile, onde se solidarizou com o governo de Salvador Allende. Em 1971, foi "excomungado" por Fidel Castro, assim como outros escritores, por pedir informações sobre o desaparecimento do poeta Heberto Padilla. Apesar de sua desilusão com a atitude de Castro, continuou acompanhando a situação política da América Latina.
Em 1973, recebeu o Prêmio Médicis por seu Libro de Manuel e destinou seus direitos à ajuda dos presos políticos na Argentina. Em 1974, foi membro do Tribunal Bertrand Russell II, reunido em Roma para examinar a situação política na América Latina, en particular as violações dos Direitos Humanos.
Em 1976, viajou para Costa Rica, onde se encontrou com Sergio Ramírez e Ernesto Cardenal, e fez uma viagem clandestina até Solentiname, na Nicarágua. Esta viagem o marcaria para sempre e seria o começo de uma série de visitas a este país.
Em agosto de 1981 sofreu uma hemorragia gástrica. Em 1983, volta a democracia na Argentina, e Cortázar fez uma última viagem à sua pátria, onde foi recebido calorosamente por seus admiradores, que o paravam na rua e lhe pediam autógrafos, em contraste com a indiferença das autoridades nacionais. Depois de visitar vários amigos, regressou a Paris. Pouco depois lhe foi outorgada a nacionalidade francesa.
Carol Dunlop, sua última esposa, faleceu em 2 de novembro de 1982, e Cortázar teve uma profunda depressão. Morreu de leucemia em 1984, sendo enterrado noCemitério do Montparnasse, na mesma tumba de Carol. Em sua tumba se ergue a imagem de um "cronópio", personagem criado pelo escritor.2
Em Buenos Aires, a praça situada na interseção das ruas Serrano e Honduras leva seu nome. Em 2007 foi dado oficialmente o nome de "Plaza Julio Cortazar" à pequena praça no extremo ocidental da "Île Saint Louis", onde ocorre o conto Las Babas del Diablo.
É considerado um dos autores mais inovadores e originais de seu tempo, mestre do conto curto e da prosa poética, comparável a Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe. Foi o criador de novelas que inauguraram uma nova forma de fazer literatura na América Latina, rompendo os moldes clássicos mediante narrações que escapam da linearidade temporal e onde os personagens adquirem autonomia e profundidade psicológica inéditas.
Seu livro mais conhecido é Rayuela (O Jogo da Amarelinha), de 1963, que permite várias leituras orientadas pelo próprio autor.
Cortázar inspirou um grande número de cineastas, entre eles o italiano Michelangelo Antonioni, cujo longa-metragem Blow-up foi baseado no conto As Babas do Diabo (do livro As Armas Secretas).
O livro Histórias de Cronópios e de Famas foi escrito por Cortázar em Roma e Paris, no período de 1952 a 1959, mas foi publicado em 1962. Ofereceu uma espécie de reinvenção do mundo através de seus personagens, os "cronópios", os "famas" e as "esperanças", que alcançam sensibilidade e fascínio na medida em que traduzem a psicologia humana.
Os cronópios, segundo Cortázar, são criaturas verdes e úmidas, distraídas, e sua força é a poesia. Eles cantam como as cigarras, indiferentes ao cotidiano, esquecem tudo, são atropelados, choram, perdem o que trazem nos bolsos e, quando saem em viagem, perdem o trem, chove a cântaros, levam coisas que não lhes servem.
Os famas, pelo contrário, são organizados e práticos, prudentes, fazem cálculos e embalsamam sua lembranças; quando fazem uma viagem, mandam alguém na frente para verificar os preços e a cor dos lençóis.

As esperanças "são sedentárias e deixam-se viajar pelas coisas e pelos homens, e são como as estátuas, que é preciso ir vê-las, porque elas não vêm até nós3 ".

RICARDO GÜIRALDES-DON SEGUNDO SOMBRA

Ricardo Güiraldes,



uno de los escritores y novelistas más importantes de la literatura argentina, autor de Don Segundo Sombra, nacía el 13 de febrero de 1886.
  Güiraldes nació en 1886, en una acaudalada familia porteña. Se traslado, junto a su familia, a  Francia cuando había cumplido un año. Pasó en Europa su primera infancia, aprendiendo a hablar francés, alemán y por último castellano.



En 1890 los Güiraldes vuelven a Buenos Aires. La vida de Ricardo se repartía entre la casa en plena ciudad y la estancia "La Porteña" en San Antonio de Areco.

El despertar a la vida en las grandes ciudades del mundo marcó su futuro estilo cosmopolita y universal.

Su infancia en el campo le descubrió al gaucho y marcó el objetivo final de su obra literaria.

En su juventud tuvo un fugaz paso por las facultades de arquitectura y derecho en las que no logró más que aplazos.

Se convirtió en el más pícaro de los playboys, las fiestas, la noche, el tango y las mujeres. Europa se rindió a su encanto. Pero entre todas las mujeres, Ricardo se rindió a una argentina, Adelina del Carril. Con ella se casó en 1913 y de ese matrimonio nacieron en 1915 los dos primeros libros de Güiraldes: "El cencerro de cristal" y "Cuentos de muerte y de sangre". Fueron rotundamente despreciados por la crítica e ignorados por el público. Ricardo los tiró en el pozo de "La Porteña".

En 1923 publico Xaimaca ,libro de viajes en forma de novela , de estilo e imagineria poéticos  e impresionistas.En 1926, Ricardo Güiraldes había recorrido con sus viajes las grandes ciudades del mundo.
En todas partes encontró un cuadro similar. El paisaje estaba dominado por la era industrial y su herramienta fundamental, la producción en cadena.Hombres y mujeres solo eran un engranaje, una pieza más de las grandes fábricas y empresas.Había nacido la sociedad de masas. Las personas apretadas en las ciudades, perdían su identidad para sumarse a la multitud.

Güiraldes con su obra proponía al lector recuperar su identidad perdida. Ser uno, en lugar de muchos.
Ricardo Güiraldes logró que el folklorismo trascendiera sus límites locales. Creó un lenguaje universal. el gaucho y La Pampa perdieron su encierro y se sumaron al bagaje literario de las gentes de cada rincón del planeta.

Su obra culmina con el clásico Don Segundo Sombra (1926) cuya historia se basa en el Kim de R. Kipling , con metáforas procedentes del vanguardismo frances de principios de siglo, en esta obra el cosmopolismo literario y el arraigo al país se funden en una de las producciones más características de la moderna literatura latinoamericana.